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Requiescat in Pace - Prelúdio




Depois de um longo e cansativo processo, que incluiu diversas entrevistas, teste psicotécnico e exame médico, recebi a confirmação de que havia sido admitido no novo emprego. A entrevistadora deu-me a notícia de um jeito que me fez pensar que eu havia ganhado na loteria. Sem saber ainda como deveria me sentir, correspondi ao seu sorriso de boas-vindas.
- Bem-vindo à nossa "família". - Ela disse, ainda sorrindo daquele jeito estranho.
Depois dessa introdução, a mulher deu-me um manual de procedimentos da empresa e informações gerais sobre o trabalho que eu iria realizar. Havia sido admitido numa empresa de serviços terceirizados de vigilância e poderia ser mandado a prestar serviço em qualquer local da cidade. Aquilo não me agradou, mas precisava do emprego e abanei o rabo como um cachorro obediente. Depois respirei fundo e perguntei onde seria o meu local de trabalho.

- O Senhor vai trabalhar como vigia noturno no Cemitério Municipal, não é interessante?
- Muito. - Respondi, quase gaguejando. Não que eu tivesse qualquer problema com cemitérios, mas aquilo era tão inesperado que conseguiu me surpreender.
- Algum problema quanto a isso? - Ela perguntou, ao mesmo tempo em que erguia uma das sobrancelhas por sobre o aro dos óculos
- Não, de forma alguma. Até penso que me convém. Lidar com os mortos deve ser mais fácil do que lidar com os vivos.
- É verdade. Não são os mortos que incomodam naquele cemitério. Tem havido queixas de violação de sepulturas, e essa é a razão pela qual fomos contratados. O senhor deve se manter atento e chamar a polícia, se houver alguma tentativa de invasão.
Aquela última informação não me agradava, evidentemente. Entre enfrentar invasores do mundo dos vivos e assombrações, eu ainda preferia a companhia dos mortos. Todavia, saí do escritório da empresa disposto a evitar que as almas penadas fossem incomodadas pelos ladrões de túmulos.
 Não que me importasse muito com isso, mas tinha um emprego a zelar, e empregos andam escassos atualmente. Vigia noturno de um cemitério não era exatamente o que eu esperava, depois de anos escrevendo meu primeiro romance e descobrir que as editoras não ligavam a mínima para minha urgência em ser publicado, conseguir aquele trabalho era muito importante, haja visto que ninguém se importava com minhas necessidades básicas, a não ser eu mesmo e minha ex-mulher. Além do mais, o emprego me permitia continuar escrevendo. O salário até que não era ruim, mas vamos combinar que o cargo de vigia noturno em um cemitério não faria nenhuma mulher suspirar por mim.
Apesar de alguns senões que a nova carreira suscitava, eu cheguei pontualmente para o primeiro dia de trabalho. Fui recebido pelo administrador do cemitério, um velhinho falante e bem-humorado. Ele parecia um fauno, e saltitava por entre os túmulos com uma agilidade surpreendente para a idade que aparentava. Devia ter lá seus noventa anos, eu acho. Um olhar mais demorado talvez concluísse que ele já tinha pelo menos um século de existência.
- Você acredita em fantasma? – Ele perguntou, ao perceber meu olhar sobre si. Embaraçado, eu desviei os olhos antes de responder.
- Eu ainda não tenho motivos para acreditar, nem negar a existência deles. – Respondi do modo mais preciso que pude. Aquela pergunta parecia ter um propósito específico e achei melhor não me arriscar em polêmicas desnecessárias.
- Você ficou em cima do muro. – Ele disse, com uma expressão zombeteira. – Mas não importa. Haverá o dia em que você terá seus motivos para acreditar em muitas coisas estranhas.
Ele esperava que eu retrucasse, mas permaneci calado. Aquele assunto não era confortável para mim por algum motivo que eu ainda não sabia. Todavia, não tinha a menor intenção de especular sobre isso.
- Bom, isso é tudo que tenho para lhe dizer por hoje. Fique atento aos invasores, mas não queira bancar o herói. Chame a polícia se precisar, ou espere alguma ajuda.
- Ajuda?
- Sim. Se eles gostarem de você, talvez o ajudem em sua tarefa.
- Eles quem? – Perguntei, fazendo um esforço para permanecer sério.
- Seus novos amigos, é claro. Eles certamente estarão por perto  em algum momento. Vão adorar conhecê-lo.
Será que ele estava realmente querendo dizer o que eu entendi? Cheguei a pensar que o velhinho não batia bem da cabeça, mas a crença na existência além-túmulo não fazia dele um maluco. Muitas pessoas acreditavam nisso.
Depois de mais algumas recomendações, o velho fauno deixou-me só, finalmente entregue às minhas obrigações. O anoitecer chegou rápido e os poucos visitantes logo foram embora. Era o momento de fechar os portões da necrópole e preparar-me para a primeira noite insone. Não sei se foi pelas palavras dele ao se despedir, ou minha fértil imaginação de costume, fui tomado por uma forte inquietação assim que fiquei sozinho a contemplar os corredores formados pelas fileiras de túmulos.
Eu não era supersticioso, nem nutria qualquer apreensão por entes ou aparições sobrenaturais.  Não que fosse dotado de muita coragem, não se tratava disso. Apenas não conseguia acreditar em vida pós-morte, fantasmas atormentados ou coisas assim, tão convicto que eu era do mundo material. Por isso mesmo não conseguia explicar a mim mesmo a sensação estranha de não estar completamente só naquele lugar.
A chuva fina que caiu logo a seguir aumentou ainda mais aquele sentimento de desolação que insistia em imiscuir-se em minha mente. Essa sensação contrariava os parâmetros de lógica que eu costumava usar para analisar tudo que me chamava a atenção. Até aquela noite, o mundo que eu percebia parecia ser tudo que existia, e assim me bastava. Todavia, essas convicções estavam para serem testadas. Inconscientemente, eu já temia o que estava por vir.
As primeiras horas se arrastaram lentamente e me proporcionaram a chance de recuperar-me daquela inquietação. A lógica aos poucos se sobrepunha ao instinto atávico dos meus supersticiosos ancestrais das cavernas. Após a primeira ronda, fui para o pequeno escritório, que era anexo à capela do cemitério. Estava disposto a aproveitar a noite insone para continuar um dos meus inúmeros projetos literários. Era justamente uma novela de horror gótico. Apesar de todo o meu declarado apego ao mundo material, esse era o meu gênero preferido para escrever.
Algum tempo depois, não sei precisar quanto, ouvi o som de passos furtivos. Parecia que minha primeira noite seria movimentada. Aborrecido com aquele interrupção, desliguei a chave geral da luz. Pensava em dar um bom susto no invasor de túmulos alheios.
Assim que a escuridão envolveu o cemitério, o ruído cessou. Tão silenciosamente quanto eu podia, deslizei para fora do escritório. Felizmente eu tinha deixado a porta aberta e meu movimento não produziu nenhum som que pudesse ser ouvido após alguns metros. Então, oculto atrás de uma lápide, eu a vi. Era uma garota e estava sentada tranquilamente sobre um túmulo. Apesar da penumbra eu conseguia perceber que ela se vestia de preto e parecia uma figura trágica e triste. Lá estava eu a fantasiar como de hábito. Era um romântico incurável, mas tinha um trabalho a fazer.
Antes que eu tomasse qualquer iniciativa, surgiram outras pessoas. Usavam roupas pretas iguais à ela e alguns tinham os cabelos espetados, provavelmente modelados com algum tipo de gel fixador. Parecia um grupinho de góticos. Uma dessas tribos urbanas, que cultivavam hábitos estranhos. Hábitos como fazer piquenique em cemitérios, pensei, baseado em minhas profundas e rançosas ideias preconcebidas.
Ainda fascinado pela moça, eu demorei a me decidir sobre o que fazer. Eles eram apenas uns garotos estranhos e não pareciam perigosos, mas como prudência e caldo de galinha não fazem mal, permaneci oculto enquanto resolvia que atitude tomar. Essa hesitação veio à calhar, pois nada iria me preparar melhor para o que viria a seguir.
Um dos garotos tirou um narguilé de uma bolsa. Logo depois um odor adocicado se espalhou pelo cemitério, enquanto o som de um atabaque encheu o ar. Eles tinham vindo bem preparados para aquela festinha esdrúxula e, pelos indícios, havia mais ainda por vir.
A garota levantou-se e ficou de pé em cima da lápide. Ao som de um cântico entoado pelos demais, ela iniciou os movimentos de uma dança tribal. Seu corpo girava e se contorcia em movimentos cada vez mais frenéticos. Os demais pareciam ter caído em um transe profundo. Devo dizer que me faltava muito pouco para juntar-me à eles naquele frenesi. Felizmente permaneci no controle de minhas faculdades mentais e pude acompanhar de, um ponto de vista privilegiado, os extraordinários acontecimentos daquela noite.
Apesar de alguns já pareceram tão drogados que não poderiam perceber plenamente o que acontecia, outros lograram permanecer com alguma lucidez e puderam testemunhar as consequências de provocar-se coisas que estavam além da compreensão de simples mortais. Esses, logo se arrependeram por ter invadido o cemitério naquela noite. E antes que me perguntem: não! Eu não tive nada a ver com o que aconteceu. Apenas presenciei os fatos que agora narro. Essas lembranças estão gravadas em minha memória de forma indelével, como brasas sobre madeira.
O ritmo das batidas no atabaque acelerou-se e, depois, o instrumento silenciou. A garota que dançava sobre o túmulo ficou imóvel, com uma expressão vazia no olhar. Os demais olhavam para ela e soltavam gritos e risadinhas insanas. Foi nesse momento que aconteceu o mais estranho dos acontecimentos que já presenciei na vida. Ela começou a flutuar na posição horizontal. Seria uma cena digna de um bom filme de terror, permitam-me dizer, não fosse a correria perpetrada pelos “valentes” companheiros dela, em uma fuga desesperada por entre a lápides sepulcrais.
Não fosse pelos gritos de pavor que ela emitiu quando saiu daquele suposto transe, creio que ainda estaria flutuando sobre aquela lápide até hoje. Subitamente a moça caiu e estatelou-se sobre a tampa do túmulo. Apesar do forte impacto, acredito que não tenha se machucado seriamente, pois levantou-se de imediato e disparou ela também, para logo sumir na escuridão.
Quanto à mim, fiquei ainda um bom tempo aturdido, sem compreender plenamente o significado daquele acontecimento bizarro, exceto pela convicção shakespeariana de que havia algo mais entre o céu e a terra, afinal de contas. Logo eu teria outras razões para rever meus conceitos cuidadosamente construído dentro de um viés essencialmente positivista durante toda a minha vida.

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